um poema

custou pra poesia se libertar de amarras métricas e formais. sendo assim, se eu quero fazer poesia, eu faço poesia: eu digo que isso que escrevo é poesia e ponto: vira poesia, não haverá orixá que desdirá isso. ou seja, isso aqui há-de ser poesia, e pouco me importa se vai parecer prosa. as vírgulas hão-de estar no lugar em que devem estar e isso vai me saciar. o que quero desse poema é mostrar que sinto falta, a tão cantada saudade, que sinto desejo, que sinto querer e só, de fato, queria tudo entendido: já me escrevo tanto, já me digo tanto em qualquer verso, que não acredito na necessidade de ter de vocalizar tudo, de dizer tudo isso em voz alta: tem pleonasmo que cansa: viver é o pleonasmo de morrer. e deve doer, a gente já sabe que dói. e de quê adianta tanta comunicação? a pergunta certa é: quem disse que tenho de usar tanta palavra pra me comunicar? gosto é da palavra sendo palavra: a graça do som, o engraçado do seu desenho, e não essa obrigação que lhe deram de ser palavreado, ou mesmo oração. se oro, é pra que a língua seja campo de brincadeira, de sexo, e não uma chateação obrigatória de ser entendido: no dia em que, através da língua, eu me entender, e digo isso porque acredito que só vou me entender sendo brincado pela língua, é que eu vou poder querer que alguém entenda o estardalhaço de palavras que faço. é que, às vezes, as coisas não são pra gente entender.

nineteen

never seen your face
as i saw it today
never started a riot
as i started today

aceitação

um jorro de sangue
não se estanca de repente
um olhar furtivo 
é dado rapidamente
uma parede construída
não cai subitamente

- um olhar construído
não se estanca facilmente

de repente

tava num dia tava quente distraído
logo ouço um estampido
era você seu bandido
querendo levar cupido
para longe do meu lar

(não era tarde eu juro que era cedo
bem na hora em que o meu medo
tal qual e feito um torpedo
ou verdade ou brinquedo
sempre costuma acordar)

mas só deus sabe que eu digo que não deixo
e se possível até me mexo
é meu punho no teu queixo
teu corpo caído - seixo
morto sem o cupido me roubar

esse tal anjo na verdade foi presente
que me deram tão carente
sedutor como serpente
milagreiro só pra gente
(iriam me amar!)

mas até hoje o feitiço não fez efeito
e é por isso que me deito
bem aqui nesse meu leito
todo quieto e bem desfeito
à espera do anjinho funcionar

e seja padre de conversa sertaneja
ou quem goste de carqueja
ou quem só coma carangueja
ou até quem apedreja
não deixo o cupido roubar!

castanha de caju

morena moreninha
por que foi que se esquivou?
o amor que eu te tinha
era grande e ainda não acabou

cajueiro dá caju
a roseira só dá rosa
minha vida sem você
não é bela e também nem é formosa

minha mãe sempre falou
que o amor era uma flor
foi aí que descobri
que você é que era essa tal flor

eram meus olhos castanhos
vendo os teus olhos castanhos
e nessa castanheira toda
é que a gente nem se achava estranho

- ô senhora do livramento
me traz de volta essa morena
que eu te prometo que de joelhos
eu vou andando até o rio de capanema

o ovo da obra

não gosto mais
de leite no café
descobri que
agora prefiro
a gema à clara
do ovo

- descobri que
minha obra final
vai guardar de
seu rascunho
só a cor primeira

estão vendo essa história nessas linhas?

um poeminha como esse
não é qualquer um que tem
e não é porque agora tu tens
que outros tenham também

mostra a quem quiseres
e diz com graça e leveza
que o poeminha é todo teu
porque deste um pouco de nobreza
ao autor desses versinhos

quem sabe eu te mando uma carta
com várias cópias do poeminha
para que mandes a todos
e possas dizer-lhes
estão vendo essa história nessas linhas?
é minha!

mas quero realmente que saibas
que esse poeminha é teu
e de mais ninguém
mas se quiseres podes escondê-lo
naquele pedacinho de corpo teu
naquele espaço de teus braços
onde ficava eu

o beijo, o grito e o garfo

um beijo
pra ser
lançado

um grito
tão baixo
acústico

um garfo
que é
o tridente
do diabo

trigo

esperar-te-ei cá e isso é
(só o que te faço)
tudo o que faço
espero espero e até
separo

trouxe grãos de feijão
pra separar nessa espera
de esperar teu voo
há três semanas não chegar

separo de um lado a ânsia
e do outro a malícia que
se cansou de te esperar

espero essas horas longas
de aeroporto e já separei
os papéis de dentro da minha bolsa
a te esperar

esperando separarei melhor
essas minhas ideias esses ideais
ignominiosos que te querem
te esperam e te querem separar
de toda essa gente que nessas cadeiras
também espera e separa as passagens

esperei demais e ainda te quero
já me separei de meu marido
como tu esperavas
mas eu espero e tu não chegas
maldito separador que és!

o que tenho?
só tenho é te esperar
ou se muito demorares
esperar que teu avião caia
e te separe de tua vida terrena

mas é mentira eu ainda
vou te esperar
vou separar
vou me separar de mim
vou me esperar até que tu chegues

porque de tanta separação
tu és o joio
do meu trigo

pé de porco defumado (ou o que restou da tua feijoada)

o que me encantou em ti
não foi tua esquizofrenia
que só descobri mais tarde
nem teu ciúme que só senti
porque sentias demais
nem teu olho clínico que te
fez notar e limpar a poeira
que cobria meu coração
nem teu absolutismo xiv
tão evidente na hora de
decidirmos se seria
bergman ou george romero
nem tua peste negra
de ódio severo mensal
nem tua pole position que
me ensinou a me deixar
ser ultrapassado

o que de fato me fez
logo no começo
sentir encanto por ti
foi saber que és tu
quem planta e colhe
a cebolinha para
cozinhar a tua feijoada